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Mostrando postagens de janeiro, 2022

O Chão disse algo

  Eu acordei no meio da noite após saltar em desespero como quem caía de um penhasco em algum sonho traiçoeiro, me perguntando: "E se?"    Aquele copo sujo em cima do meu teclado andava me irritando! Não mais do que a meia suja que eu joguei no canto e não tive coragem de retirar. Mas tudo anda meio que me irritando depois que ele disse que não poderíamos namorar já que namorar para ele implicaria em estar apaixonado... Coisa que ele não estava.     O que ele quis dizer com isso? É uma boa pergunta. Mas a pergunta que não quer calar mesmo é por que eu não dobrei aquela cropped vermelha que está em cima da mesa há uma semana?! Aquela guimba de cigarro está em cima da pia há dois dias e já não sei se a finalizo ou a jogo fora.      Ele tinha ojeriza à cigarro. Eu prometi que pararia mas não iria adiantar... Esse era o menor dos meus defeitos e quem não pode suportar uma fumacinha eventual não conseguiria aguentar a carga de lidar com a minha desorde...

O Surdo

  O problema estava nas unhas. Eu as roou, eu roou o esmalte, as cutículas, a carne dos dedos e se eu alcançasse os pés, ainda roeria. Isso caracteriza minha ansiedade, mas ele não enxergaria nada além do que a imagem pode proporcionar.  Foi um comentário machista aqui, um comentário capitalista ali e uma foto enviada sem pedir permissão, mostrava grande parte da sua ausência de falo mas mostrava a necessidade de reafirmar seu falocentrismo heterossexual; ele era mais um. Quantas vezes perguntei se eu acabaria me adequando a mais um ou se finalmente estaria bem sozinha? Boa pergunta, mas, de fato, não importa. A questão é que eu não sabia se me explicava por conta das unhas ou se já começava a trabalhar meu desapego naquele exato momento. "Bom, sabe qual a causa psicossomática de roer unhas?" - e ele iria me perguntar o que é psicótica ou somática; depois falaria algo como: 'Ah, não importa. Você tem uma bunda linda, sabia?'. Voltamos a estaca zero. Estou presa no fum...

A Era do Silêncio

  Uma unha, um cigarro e um olhar. Acabei notando: perdi a minha voz! Começou a era do silêncio... Não falo da voz potente e grave entoando alguma música que faz os pelos arrepiarem, mas da voz que fala ao meu ouvido que o dia amanhã ainda irá brilhar. A mesma voz que grita por princípios que só ela poderia me levar a acreditar. A característica dessa voz era esperança... Talvez prepotência. Mas ainda esperança. Esperança essa que eu nunca precisei analisar já que sempre esteve ali, presente e constante, mesmo quando me encontrava em meio ao caos emocional; mesmo quando não parecia haver uma luz no final do túnel, essa voz acendia em neon. Talvez não a luz que todos aprovassem, mas a luz que fazia sentido para mim. No final das contas, o meu mundo e o meu túnel são partes integrantes do meu Estado interior sob uma forma de governo egocêntrica e individualista; nada mais justo não caber a mais ninguém. Mas parecia que alguém tinha arrombado os portões de aço entre as muralhas do meu...

A história de Bia

  Bia sempre foi uma criança introvertida que não sabia como impor suas vontades ou necessidades as pessoas a sua volta. Sempre soube que seria como um hamster colocado em um aquário de cobras quando saísse de sua barraca de lençol arquitetada cuidadosamente no centro de seu quarto - o mundo era um lugar além de hostil e seu certificado de "Como se adequar entre os idiotas que você despreza" venceu antes mesmo que ela soubesse que o tinha. Sentia atração pela vizinha, se apaixonava pelo vizinho mas no final do dia declarava toda a sua devoção por sua mãe - seu instinto de proteção era voltado a ela. Era a aluna com notas altas que engolia alguma palavra prolixa enquanto soluçava chorando depois de algum colega de sala taxá-la como "inteligentizinha" e chutar sua canela. No entanto, a escola sempre foi o refúgio quando precisava refletir sobre seu lar desestruturado, sua imagem paterna alcoolizada e sua necessidade em proteger a imagem materna do que ela esperava que...

Seu nome é Karma.

  Seu perfume era como um afrodisíaco natural que se deveria comercializar como uma espécie de poção amorosa. Eu nunca havia experimentado uma fragância que tivesse tanto controle sobre mim. Não era só o cheiro mas a forma como ele mexia os dedos assinalando os instrumentos das músicas... Ah, era como uma varinha de condão que me regia para onde quisesse; esse era o início do meu fim. E desde então, ele esteve aqui. Principalmente, quando não esteve. Eu forço a memória e consigo ouvir sua voz e suas oscilações entoando alguma piada sexualizada intencionalmente para depois me dizer que não se trata apenas de sexo mas sim de um "algo mais". No meu dicionário esse "algo mais" vem seguido de uma imagem onde eu estou encostada em algum canto de parede escuro balançando o meu corpo enquanto abraço minhas pernas agachada e choro dizendo ao mundo "Quanto está o score do Karma, agora?"; mas além disso, é o último suspiro da menininha crente dentro de mim que aguard...

"Parada em São Paulo!"

  Os olhos lacrimejaram depois de olhar fixamente para os traços brancos pintados no asfalto que passavam rapidamente; era o chão ou o céu - não fazia mais sentido olhar o inalcançável. Já não sabia se eram lágrimas de vista cansada ou de alma pesada, mas que diferença faria?   A vida inteira acreditei que o inalcançável fosse apenas uma expressão para desiludir quem pensasse diferente... Temo que eu tenha, por fim, aceitado me encaixar. Assim como me encaixei em uma poltrona que lesava minhas pernas ao ponto que a dor física se equilibrou com a emocional.   Foram algumas horas de viagem. A playlist já estava na terceira repetição e eu estava com aquele sentimento de que se a minha música preferida fosse a próxima a tocar tudo estaria bem... Mas eu havia me esquecido de adicioná-la a nova playlist e ela não tocou. Assim como a razão não tocava mais na minha mente. Eis, de volta, o desequilíbrio; amargo como jamais tinha sido antes.   "Collecting names of the lovers t...

Ala Psiquiátrica

Encarei o teto da ala psiquiátrica como quem aprecia uma obra de arte. Ouvindo os gemidos e gritos da Dona Aparecida em plena madrugada. A dor dela não era física e dessa dor eu entendo muito bem. Trata-se de uma dor na alma por perceber que nunca seremos normais e aí eu me pergunto sempre: "O que é a normalidade?". Essa pergunta eu já respondi várias vezes à psicóloga: "Se eu nunca fui normal, como poderia saber?" Eu sei apenas o que é ser louca e tem dias que isso é uma delícia, me sinto única, intocável, especial e tantos outros adjetivos que faria todos pensarem que eu estou na mania.  "Meu anjo, eu tenho uma proposta pra te fazer. Vou alugar uma casa em Uberlândia e nós iremos nos casar." e foi suficiente pra minha pomba gira dar uma gargalhada gostosa que vazou pela minha garganta.  Meu irmão, você não quer se casar comigo, acredite. Eu sou um espírito livre, um unicórnio alado, um centauro selvagem! Claro que ele não aceitou o não e me infernizou po...

Universo responde

 Quantas vezes você já olhou pro céu e se perguntou se realmente existe algo ou alguém que possa te dar uma resposta? E quantas vezes você precisa ouvir essa resposta para aceitá-la como tal? Isso aconteceu comigo... Lá estava eu, poucos meses após a morte de minha avó, sentada na fila do Vale do Amanhecer, esperando para ser atendida pelos pretos velhos e naquela angústia se de fato eu ainda tinha fé e se sim, deveria eu voltar a trabalhar mediunicamente? Eu olhei pro Pai Seta Branca e perguntei em silêncio dentro da minha própria consciência: "Será que meu lugar é aqui?". Cá entre nós, eu sempre fui apaixonada pela macumba, pela umbanda, pelo candomblé... Essa coisa de doutrina universal cristã não me apetecia muito. Eu sempre admirei os trabalhos e sempre gostei demais, mas nunca me via trabalhando ali (apesar de ter tentado duas vezes). Ser médium não é nenhuma dádiva, mas sim uma missão turbulenta cheia de percalços. Mas se essa missão me foi dada, quem sou eu para quest...