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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

O Couvert do Desespero

  Ser artista no Brasil é um grande experimento social de paciência e sobrevivência. Uma experiência quase espiritual, onde o indivíduo aprende, na marra, a meditar enquanto espera resposta de um bar que visualizou a mensagem há seis dias e não disse nem um “oi” de volta. Talvez estejam ocupados demais decorando a frase motivacional em neon na parede do banheiro ou decidindo se o drink da casa vai ter licor de jabuticaba com espuma de gengibre ou maracujá defumado. Prioridades, né? E se, por um milagre que só os orixás explicam, o artista consegue fechar um show, lá vem a negociação do couvert artístico. "Ai, mas a casa não cobra couvert, tá? A gente trabalha no sistema da boa vontade do público.” Boa vontade do público. Só quem já tocou duas horas para uma mesa de seis amigos bêbados que pagaram uma long neck em PIX parcelado sabe o que essa frase significa. Porque as pessoas pagam R$ 70 num hambúrguer que vem com uma fatia de pepino gourmet, mas dar R$ 10 pro músico? Jamais! Dá ...

Defina "Ser Funcional"

 Chega uma hora que cansa. O neurodivergente chega naquele ponto da vida em que a promessa do remédio milagroso, da terapia resolutiva, do coach motivacional, simplesmente não se cumpre. Você toma os comprimidos, frequenta as sessões, faz journaling, baixa app de meditação, e ainda assim, surpresa: a sua cabeça continua parecendo um grupo de WhatsApp em que todo mundo fala ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes e ninguém nunca sai. E não é como se a gente não tentasse. Tentamos muito. Tentamos ser organizados, metódicos, produtivos. Tentamos acordar às seis da manhã, beber dois litros de água, comer sem glúten, sem lactose, sem culpa. Tentamos usar planners e listas de tarefas, mas no final das contas, a gente só cria um cemitério de cadernos semi-preenchidos e notas de celular que nunca mais serão lidas. Tentamos funcionar nos moldes que nos venderam como "o ideal". Só que não dá. E aí vem a culpa, o pânico, o burnout, e você se pega chorando no banheiro do trabalho porqu...

Mundo Moderno Neurodivergente

 A humanidade resolveu colocar um foguete no próprio rabo e apertar o botão de ignição. Chamamos isso de progresso. Tudo é rápido, tudo é ultra, tudo é hiper, tudo é agora. Se você pisca, perdeu. Se você não se adapta, faliu. Se você respira fundo, já era, te passaram para trás. O capitalismo aceleracionista vende essa coisa de eficiência, otimização, biohacking, foco máximo, mas, no fundo, a gente só quer poder abrir um app de delivery sem sentir culpa por pedir um lanche de trinta reais que, segundo o algoritmo, deveria ser uma salada porque você já consumiu carboidrato demais essa semana. E aí, no meio dessa montanha-russa sem cinto, surge a grande revelação: estamos todos fodidos. Mas calma, tem diagnóstico para isso! Agora, cada tremedeira, cada insônia, cada desconforto social tem um código no CID. Você não é só um ser humano cansado de um sistema esmagador. Você é neurodivergente. Você não tem só dificuldade de prestar atenção porque recebe 879 notificações por hora. Você t...

Reality Show Infinito

 A vida moderna é um grande reality show onde todo mundo corre desesperado atrás de uma mala cheia de dinheiro que ninguém sabe quem colocou lá. E o mais bizarro: a maioria esquece de perguntar se precisa mesmo dessa mala. Acordamos cedo, engolimos café requentado, enchemos o pulmão com a fumaça de um ônibus lotado e chamamos isso de “construção de um futuro”. Mas futuro pra quem? Pro banco que lucra com nossos boletos? Pro algoritmo que decide se hoje somos relevantes ou invisíveis? Ou para aquele chefe que nos chama de “colaborador”, mas nos trata como toner de impressora: caros, descartáveis e só lembrados quando acabam? No fundo, nos vendem a ilusão de que somos especiais, enquanto nos apertamos em filas de emprego como figurantes mal pagos no espetáculo do progresso. O sucesso virou uma religião que promete a salvação através de reuniões no Zoom e metas inalcançáveis. “Acredite nos seus sonhos!”, gritam os coachs, sem dizer que o maior truque do capitalismo foi transformar son...

Desumanidistopia

 Ser adulto é perceber que aquela história de que "o esforço sempre vale a pena" é um daqueles mitos que nos contam quando somos crianças, tipo Papai Noel ou meritocracia. Crescemos achando que a vida é uma escada rolante que nos leva para cima, mas na verdade é uma esteira quebrada num aeroporto falido: você anda, anda, e continua parado, enquanto alguém que nasceu no portão de embarque da primeira classe já está tomando champanhe na área VIP da existência. Nos vendem a ideia de que a dignidade está no trabalho, mas esquecem de mencionar que os que mais trabalham são justamente os que menos têm tempo para desfrutar dessa tal dignidade. O mundo se tornou um grande leilão, e a gente aprende cedo que o nosso valor é medido pelo quanto conseguimos vender de nós mesmos. Sorria, seja produtivo, mostre que merece estar aqui. Mas a verdade é que ninguém nunca merece nada nesse sistema montado como uma festa onde só alguns têm convite e o resto é barrado na porta. Enquanto corremos f...

Ninguém fica para trás!

 Ser adulto é descobrir que a liberdade que nos venderam na infância é só um aluguel caro demais para quem nunca recebeu as chaves. Trabalhamos para sobreviver e sobrevivemos para continuar trabalhando, enquanto um punhado de donos do mundo ajusta as regras do jogo para que nós, os sem-crachá vitalício, continuemos correndo sem nunca alcançar a linha de chegada. O capitalismo nos convenceu de que a felicidade está na próxima promoção, no carro do ano, na casa que a gente financia por três décadas e nem sabe se vai viver para quitar. Tudo isso enquanto nos empurra um café requentado e nos manda sorrir, porque reclamar é falta de gratidão. E nesse grande tabuleiro de xadrez social, há quem ache que ser competitivo é ser virtuoso. Como se o mérito fosse a única métrica da dignidade humana. Como se um milhão na conta bancária validasse um caráter. Mas ninguém conta que essa corrida insana nunca teve linha de chegada. Que quem tem muito quer mais, e quem tem pouco precisa agradecer por ...

Ótica Divergente

 O mundo nos vende a ideia de que a sanidade é um condomínio de luxo, e nós, neurodivergentes, somos os invasores pulando o muro para tentar entrar. Um lugar onde a portaria só abre para quem caminha em linha reta, sem hesitação, sem surtos filosóficos às três da manhã ou colapsos emocionais em plena segunda-feira. Lá dentro, os moradores seguem suas rotinas programadas, regam as plantas na mesma hora, sorriem nos elevadores sem nunca se perguntarem se aquele sorriso é realmente deles ou apenas um adereço socialmente esperado. Enquanto isso, nós, os de fora, os que sentem demais, somos barrados pela segurança por não termos o código de barras da normalidade estampado na testa. Mas e se, na verdade, a loucura for só uma ótica diferente, um jeito mais cru de ver a vida sem a maquiagem das convenções sociais? Se, ao invés de um erro de fábrica, fôssemos a falha que prova que o sistema nunca esteve completo? A verdade é que passamos tempo demais tentando corrigir o que nunca esteve err...