Mundo Moderno Neurodivergente

 A humanidade resolveu colocar um foguete no próprio rabo e apertar o botão de ignição. Chamamos isso de progresso. Tudo é rápido, tudo é ultra, tudo é hiper, tudo é agora. Se você pisca, perdeu. Se você não se adapta, faliu. Se você respira fundo, já era, te passaram para trás. O capitalismo aceleracionista vende essa coisa de eficiência, otimização, biohacking, foco máximo, mas, no fundo, a gente só quer poder abrir um app de delivery sem sentir culpa por pedir um lanche de trinta reais que, segundo o algoritmo, deveria ser uma salada porque você já consumiu carboidrato demais essa semana.

E aí, no meio dessa montanha-russa sem cinto, surge a grande revelação: estamos todos fodidos. Mas calma, tem diagnóstico para isso! Agora, cada tremedeira, cada insônia, cada desconforto social tem um código no CID. Você não é só um ser humano cansado de um sistema esmagador. Você é neurodivergente. Você não tem só dificuldade de prestar atenção porque recebe 879 notificações por hora. Você tem TDAH. Você não está exausto porque vive num mundo que exige demais de você. Você está deprimido, talvez bipolar, com um transtorno ansioso generalizado de brinde. Aqui está seu rótulo, seu remedinho, sua nova identidade digital. Agora volte ao jogo. Continue produzindo.

E não me entenda mal, não estou negando a neurodivergência – ela existe, sempre existiu. A diferença é que, antes, ninguém ligava. Ou melhor, ninguém estava mapeando, categorizando, medicalizando para manter todo mundo funcionando direitinho, sem muitos surtos públicos. A psiquiatria moderna, vestida de boazinha, virou uma engrenagem do biopoder que Foucault tanto falava: o controle sobre os corpos, as mentes, as emoções, tudo feito com a melhor das intenções. Para seu bem-estar. Para sua qualidade de vida. Para que você continue sendo produtivo, consumindo, pagando boletos e acreditando que a próxima compra, a próxima promoção, a próxima viagem vão, finalmente, te fazer sentir alguma coisa.

E cá estamos nós, ansiosos, inseguros, assistindo vídeos de três minutos sobre como não ser ansioso e inseguro. Tentando achar um propósito num mundo que já mudou mil vezes desde a hora que você começou a ler este texto. Mas olha só, talvez a grande piada cósmica seja essa: o mundo sempre foi assim. Confuso, injusto, instável. A diferença é que agora a gente sabe disso em tempo real, com gráficos, especialistas e lives no Instagram.

A moral da história? A mesma de sempre: ninguém tem controle de nada. Nunca teve. Então talvez a saída seja parar de tentar ganhar um jogo que foi feito para ser impossível. Respirar fundo (sem medo de ficar para trás). Rir um pouco do caos. Comer o maldito carboidrato sem culpa. E seguir, tropeçando, mas seguindo, porque no fundo é isso que todo mundo está fazendo – inclusive quem finge que não.

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