O Couvert do Desespero

 


Ser artista no Brasil é um grande experimento social de paciência e sobrevivência. Uma experiência quase espiritual, onde o indivíduo aprende, na marra, a meditar enquanto espera resposta de um bar que visualizou a mensagem há seis dias e não disse nem um “oi” de volta. Talvez estejam ocupados demais decorando a frase motivacional em neon na parede do banheiro ou decidindo se o drink da casa vai ter licor de jabuticaba com espuma de gengibre ou maracujá defumado. Prioridades, né?

E se, por um milagre que só os orixás explicam, o artista consegue fechar um show, lá vem a negociação do couvert artístico. "Ai, mas a casa não cobra couvert, tá? A gente trabalha no sistema da boa vontade do público.” Boa vontade do público. Só quem já tocou duas horas para uma mesa de seis amigos bêbados que pagaram uma long neck em PIX parcelado sabe o que essa frase significa. Porque as pessoas pagam R$ 70 num hambúrguer que vem com uma fatia de pepino gourmet, mas dar R$ 10 pro músico? Jamais! Dá para perceber o nível de prestígio da categoria quando o QR Code do artista fica menor que o cardápio de drinks.

Ser artista é viver o paradoxo de quem precisa produzir para existir, mas que não pode existir porque ninguém quer pagar. Todo mundo ama música ao vivo, poesia, cinema independente, teatro de rua... desde que seja de graça. “Ai, mas é que eu achei que vocês faziam porque amavam!”. Sim, meu anjo, mas amar não paga o boleto do aluguel, muito menos a porção de batata trufada.

Enquanto isso, o mundo gira em outra frequência. O mercado financeiro, essa ficção distópica que regula nossa infelicidade, segue premiando quem tem mais zeros na conta e menos empatia na alma. “Sucesso” não é mais sinônimo de talento, esforço ou algo que envolva um pingo de transcendência moral – basta acumular bens, bitcoins e um engajamento artificial. Enquanto o artista se desespera tentando vender sua arte, tem coach por aí cobrando R$ 3.000 por um curso de mindset que ensina a acordar às cinco da manhã para repetir frases no espelho.

Mas, no fundo, a gente sabe: caixão não tem gaveta. O empresário que negou cachê e o playboy que torceu o nariz para o chapéu da banda vão acabar no mesmo lugar – e, ironicamente, é bem provável que alguém toque um violão no velório deles. A diferença é que, no fim das contas, o artista leva alguma coisa, sim. Leva história, leva amor, leva resistência. Porque, entre acumular riqueza e acumular beleza, há quem ainda escolha a segunda opção.

E é esse tipo de gente que mantém o mundo de pé. Mesmo que seja tocando para mesas vazias e garçons que fingem que não ouviram o pedido de um copo d’água.

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