Desumanidistopia

 Ser adulto é perceber que aquela história de que "o esforço sempre vale a pena" é um daqueles mitos que nos contam quando somos crianças, tipo Papai Noel ou meritocracia. Crescemos achando que a vida é uma escada rolante que nos leva para cima, mas na verdade é uma esteira quebrada num aeroporto falido: você anda, anda, e continua parado, enquanto alguém que nasceu no portão de embarque da primeira classe já está tomando champanhe na área VIP da existência.

Nos vendem a ideia de que a dignidade está no trabalho, mas esquecem de mencionar que os que mais trabalham são justamente os que menos têm tempo para desfrutar dessa tal dignidade. O mundo se tornou um grande leilão, e a gente aprende cedo que o nosso valor é medido pelo quanto conseguimos vender de nós mesmos. Sorria, seja produtivo, mostre que merece estar aqui. Mas a verdade é que ninguém nunca merece nada nesse sistema montado como uma festa onde só alguns têm convite e o resto é barrado na porta.

Enquanto corremos feito ratos atrás de um pedaço de queijo que talvez nem exista, nos esquecemos de olhar para o lado e perceber que todo mundo está na mesma gaiola. E se, ao invés de disputar migalhas, aprendêssemos a dividir o pão? Se parássemos de glorificar quem sobe pisando e começássemos a admirar quem constrói pontes?

O topo é um lugar solitário, frio e cheio de gente que esqueceu o próprio nome enquanto subia. Talvez a grande revolução seja simplesmente parar de correr e perceber que não estamos sozinhos nessa pista de corrida sem linha de chegada. Que podemos parar, respirar, e entender que a vida é mais do que um jogo onde só um ganha. E que talvez, só talvez, a vitória real seja outra coisa: ser humano de verdade, num mundo que insiste em nos transformar em máquinas.

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