Defina "Ser Funcional"

 Chega uma hora que cansa. O neurodivergente chega naquele ponto da vida em que a promessa do remédio milagroso, da terapia resolutiva, do coach motivacional, simplesmente não se cumpre. Você toma os comprimidos, frequenta as sessões, faz journaling, baixa app de meditação, e ainda assim, surpresa: a sua cabeça continua parecendo um grupo de WhatsApp em que todo mundo fala ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes e ninguém nunca sai.

E não é como se a gente não tentasse. Tentamos muito. Tentamos ser organizados, metódicos, produtivos. Tentamos acordar às seis da manhã, beber dois litros de água, comer sem glúten, sem lactose, sem culpa. Tentamos usar planners e listas de tarefas, mas no final das contas, a gente só cria um cemitério de cadernos semi-preenchidos e notas de celular que nunca mais serão lidas. Tentamos funcionar nos moldes que nos venderam como "o ideal". Só que não dá. E aí vem a culpa, o pânico, o burnout, e você se pega chorando no banheiro do trabalho porque a sua mente decidiu entrar em colapso justo no meio do expediente.

E se, ao invés de tanto tentar ser algo que claramente não somos, a gente só aceitasse a nossa versão caótica e errática como uma forma legítima de existir? E se a gente parasse de fingir que existe uma linha de chegada e abraçasse o fato de que a vida não é uma corrida, mas um labirinto esquisito cheio de gatos preguiçosos, GIFs engraçados e memórias de infância que surgem do nada? E se, ao invés de se adaptar ao mundo, a gente adaptasse o mundo pra gente – da nossa maneira, com nosso tempo, com nossas pausas, nossos surtos e nossos respiros profundos?

A moral da história? O caos é inevitável, então que pelo menos ele tenha um pouco de humor. Que a gente ria do planner abandonado, que a gente celebre o dia em que conseguiu lavar o cabelo, que a gente entenda que "funcionar" não é uma régua única. E que, acima de tudo, a gente aprenda a viver sem a obrigação de ser perfeito – porque, convenhamos, ninguém nunca foi.

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