Ala Psiquiátrica

Encarei o teto da ala psiquiátrica como quem aprecia uma obra de arte. Ouvindo os gemidos e gritos da Dona Aparecida em plena madrugada. A dor dela não era física e dessa dor eu entendo muito bem. Trata-se de uma dor na alma por perceber que nunca seremos normais e aí eu me pergunto sempre: "O que é a normalidade?". Essa pergunta eu já respondi várias vezes à psicóloga: "Se eu nunca fui normal, como poderia saber?" Eu sei apenas o que é ser louca e tem dias que isso é uma delícia, me sinto única, intocável, especial e tantos outros adjetivos que faria todos pensarem que eu estou na mania. 
"Meu anjo, eu tenho uma proposta pra te fazer. Vou alugar uma casa em Uberlândia e nós iremos nos casar." e foi suficiente pra minha pomba gira dar uma gargalhada gostosa que vazou pela minha garganta. 
Meu irmão, você não quer se casar comigo, acredite. Eu sou um espírito livre, um unicórnio alado, um centauro selvagem! Claro que ele não aceitou o não e me infernizou por dias dentro daquela psiquiatria, dizendo que eu parecia a Marília Mendonça (sem nem ter me ouvido cantar). 
Conviver em uma ala cheia dos "seus" é uma faca de dois "legumes" e legume nunca foi exatamente algo que eu comi por prazer, apenas por extrema necessidade. A grande maioria com uma carga de vida que faria os "normais" tremerem na base. Se eu me assusto? HAHA  Eu acendia o meu cigarro e ia perguntar porque diabos a Rose havia enfiado uma tesoura no pescoço do ex-namorado. Ou o porquê do Barone ter sua cabeça procurada por traficantes aos 15 anos de idade. A ala psiquiátrica pode ser um show de horrores pra muitos, pra mim é um habitat natural.
"Hora dos remédios" e me apagaram antes que eu pudesse ver a virada do ano. Dizem que o que você faz na virada, você fará o resto do ano. Eu, provavelmente, vou hibernar. Não deu tempo nem de comer uma uva, quando eu vi, eu já estava no dia 1º esperando minha vez de pegar o pão com chá mate e começar mais um dia na ala psiquiátrica como qualquer outro. 

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