Abri a geladeira de madrugada esperando que sua mini lâmpada iluminasse a escuridão da minha solidão inerente à existência que mesmo em meio à multidão me faz sentir desinteressante o suficiente ocasionando não só o meu desencaixe social como a minha sensação de ser uma sereia alada que ocasionalmente voa e eventualmente se afoga enquanto tenta nadar contra a correnteza de seu habitat híbrido. 

    Pertencer sempre foi complicado por eu ser mutável demais, influenciável demais, adaptável demais, por fim, a tal camaleoa social que insisto em conceituar para quem não possui uma perspectiva da realidade distorcida por uma condição mental que me faz acreditar que caso eu não seja aceita na tribo, eu deixarei de existir e me tornarei pó de pirlimpimpim que só vale alguma coisa quando está encantando e cantando para outro ser que é requisito essencial para a minha existência.

    E olha que loucura, eu existe apesar dos olhares alheios mas me subjugo em ser o que me permitem ser dentro do repertório subjetivo de vivências experienciadas por cada um e ainda assim, adequo as narrativas dramáticas de minhas histórias exageradas e moldadas à moral de quem me ouve na esperança de que ele se identifique e tenha interesse em me manter em seu círculo social pelo menos como a boba da corte que não só me permito ser de forma ridícula mas também como necessito me apresentar para soar cada vez mais moldável ao que esperam e conseguem respeitar o que eu me propuser a ser para alcançar a estima do outro em detrimento da minha essência esquizoide. 

    Eu não existo longe dos reflexos das retinas da imagem do outro sobre mim. Eu não sinto que pertenço ao planeta terra se não estiver pendurada em um telefone detalhando todos os meus pensamentos e sentimentos para alguém que valide minha quantidade excessiva de reclamações sobre o fio dental cheio de fiapos que se desfaz na minha arcada dentária mal desenvolvida que empurra cada vez mais meu maxilar rumo ao pescoço me tornando uma galinha papuda que pesa o ambiente com seu miasma verborrágico. É uma dependência social gigante. 

    Sim, diz o psicólogo que eu reclamo demais e isso pesa o ambiente. E que minhas piadas ácidas e subliminares sobre questões muito complexas para realmente terem graça aos ouvidos de quem não é borderline ou um potencial suicida que ri do saco de carvão comprado na hora do desespero irracional e incontrolável; só quem vive sabe que virar churrasquinho é uma escolha patética e exagerada de alguém que vê o mundo através de uma lupa pessimista emocional que transforma cada afirmação ordinária num ataque pessoal colossal que tende a me ferir mesmo que eu racionalize que quase nada é de fato sobre mim. Aliás, quase tudo não gira ao redor do universo mofado do meu umbigo sujo mas a megalomania e a paranoia sintomática da minha condição muitas vezes me impede de chegar à conclusão óbvia: eu não sou o centro do universo, na verdade, eu estou na borda dos limites tangíveis da existência. Desconstruindo narrativas e conceitos, mascarando medos e terrores. 

    Eu tendo a ultrapassar os limites numa busca incessante por respostas que preencham as lacunas das dúvidas que carrego e nenhuma resposta parece satisfazer essa ânsia... e não, não deveria ser tão difícil existir e comer umas frutinhas pra não morrer de fome, matar um coelho pra comer na janta, lavar a cara suja de cupuaçu num rio próximo à minha toca e não saber que eu tenho nome civil registrado num cartório porque a civilização como conhecemos não existe... a humanidade evoluiu muito, mas será que melhorou a nossa condição de vida?

    Parece que as regras e os dogmas deixaram de nos influenciar a sermos pessoas melhores e passaram a nos desafiar a transgredí-las em silêncio alimentando nosso lobo mal que tanto anseia nadar contra tudo o que lhe foi imposto como certo e evitando tudo aquilo que fora outrora proibido, além do mais, o proibido sempre pareceu mais gostoso e a punição não é só um temor como uma fonte de prazer genuína no final das contas.

    Apanhar por ser uma menina má não é só mais prazeroso como reafirma o óbvio: eu sou uma marginal que não se encaixa e agora que transgredi suas regras morais hipócritas que todos fingem seguir posso me sentir diferente dos meus semelhantes que se encontram tão vazios e perdidos quanto eu, mas como eu não controlo minha ira e impulso tão bem quanto eles, eu serei vista e julgada por agir em desacordo com tudo o que esperavam de mim... mas de uma forma inconsciente, claro. Além do mais, eu só quero ser mais uma hipócrita que finge estar seguindo as regras como qualquer outra pessoa tida como "normal" pelo simples fato de não assumir suas verdadeiras ideias e vivências. A negação é a bandeira da nação e o recalque esconde traumas que as pessoas não estão prontas a encarar... muito menos eu. Adeus, sanidade ou coerência, nunca precisei de vocês em minhas lamúrias emocionadas demais para serem acatadas como dignas de serem ouvidas pelos mascarados de neurotipicidade.

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