CIGARRO DE CAFÉ EM FALTA

 Foi quase uma semana procurando o cigarro de palha sabor café e todos as distribuidoras me respondendo que estava em falta devido ao consumo exagerado à despeito da produção insuficiente de tabaco cafeínado para viciadas impulsivas e movidas pela compulsão adictiva como eu... sem tabaco sabor café me falta o ar!

CADÊ A DROGA DO MEU CIGARRO, IRMÃO?

Eu gritei aos quatro ventos sem temer o julgamento, além do mais, não se trata de uma mera apreciação mas sim de um vício fisiológico que me enlouquece quando começam a passar as horas de abstinência que seriam muito mais toleráveis após uma verdadeira ressignificação da falta emocional que me força a buscar uma anestesia através do uso de entorpecentes e fumaças que prometem milagres enquanto assassinam os verdadeiros messias vestindo a pele deles de salvadores da pátria e fingindo que mudou de fato a minha realidade mas só alterou a minha percepção do que realmente está à minha frente... um fracasso que insisto em nomear por não ter conseguido corresponder às expectativas dos meus pais no tocante à minha profissão e a forma como eu ganho dinheiro vendendo minha mais-valia artística que aparentemente é inalienável uma vez que não vale nada pra ninguém...

A grande questão é que não ganho dinheiro, tudo o que produzo é objeto de escambo e comodato e muitas vezes vira propaganda da minha arte sem que eu imponha um valor monetário por temer que talvez eu não produza obras boas o suficiente para serem comercializadas ou apreciadas por retinas que não sejam as minhas e por fim, talvez eu mesma desvalorize o meu trabalho ao permitir que os outros me peçam para trabalhar de graça sem sequer se sentirem culpados por tal exploração. Mas quem define o que é exploração? O artista, que depois de tanto tempo sendo desvalorizado e rebaixado à pessoa em situação de rua no bairro do status social academicista e técnico-científico na cidade da hierarquia das matérias humanas relevantes à subsistência que define a anatomia como tema essencial ao único curso que pode te jogar no topo da classe humana: medicina, a ciência que define e conceitua o que é patológico o suficiente pra ser medicado, como as suas sinapses neurais que não produzem hormonia da felicidade suficiente pra te fazer menos artista... além do mais, ser artista numa sociedade que visa lucro, consumo e produção, é como ligar a tv sem ter um cabo que transmita os canais, você até consegue ligar, mas não vai ter o que quer. Você pode até compor e escrever, mas não vai vender arte pois ela não é um produto admirável, ela pode ser uma técnica de interpretação múltipla que leve à subversão que ocasiono o inconformismo com os limites impostos e os pecados julgados e punibilizados a fim de te adequar à certeza dos valores éticos e morais impostos como universais e reais, mas apenas aludem teorias de alguém que foi ouvido quando nem deveria, a real é essa.

Eu convivo com médicos desde os 9 anos e tenho seus contatos telefônicos de urgência em minha agenda desde que me entendo por gente. E também, já ouvi de várias psiquiátras que era uma dádiva ser artista e que a consequência era essa estranheza com a realidade de quem não gasta tempo com arte escrita, pintada ou cantada mas gasta acumulando criptomoedas e elogios devido ao seu sucesso dentro dos critérios sociais tais quais renda que garanta conforto e profissão que traga prestígio no seu círculo social. Adquirir objetos de marca que valem mais que poemas inefáveis na roda dos amigos, além do mais, enquanto meu poema subversivo incomoda e distingue opiniões, um relógio de marca mostra quantos segundos de inveja são necessários para levar uma pessoa a correr e comprar um objeto idêntico ao do alvo de inveja para se sentir cada vez mais próximo de ser um sucesso por conseguir comprar e possuir tudo aquilo que todos almejam não porque realmente precisam, mas porque as propagandas incitam que nós precisamos de tais produtos para continuar no páreo da competição ilógica do ser-ter que é muito mais importante pra classe dominante do que o ser-ser. Ser artista incomoda quem se conforma com um relógio que custa mais que um rim bom no mercado negro e ainda o valorizam mais que órgãos como cérebro ou coração que deveriam instigar pelo menos uma incerteza quanto ao que é o conceito honesto de sucesso individual diante da loucura desse cenário de sucesso aquisitivo e profissional numa sociedade que insiste em perpetuar formas distintas de escravidão ao longo do tempo.

Poesia não é intelectualmente acessível àqueles que não compreendem a amplitude e multidisciplinariedade de cada verso metafórico abastecido de humor ácido e sarcástico cuja subjetividade demasiadamente imprudente se encontra incompreendida e repreendida para aqueles que se negam a serem taxados de malucos rebeldes... mas até o Sílvio Santos lucrou com a novela Rebelde na época da minha adolescência e eu era uma dessas rebeldes sem causa que investiam em cds desses adolescentes rudes que confundiam deselgência autocentrada com subversão necessária à ascensão das minorias no coletivo.

Pensar é uma ação reduzida ao termo de ato revolucionário de comunista esquerdista atualmente e não importa se você sequer acredite em utopias político-econômicas o suficiente para se posicionar enquanto liberal ou progressista, ser contra preconceitos te torna o diabo que ataca famílias tradicionais cujos indivíduos nem são originários dessas terras mas colonizaram etnais demonizando suas crenças teológicas extinguindo suas culturas hereditárias costumeiras e realmente tradicionais de milhares e milhares de anos do povo que já vivia ali antes desses apropriadores ousados, subjugando todas as etnias aos costumes criados e impostos pelos colonizadores que queriam máquinas de produção que ampliassem cada vez mais seus "bens" derivados de roubos mediante violência clara mascarada de ensinamentos e apropriações de heranças étnicas e pertences culturais concomitantes às rendas alheias, afastando a dignidade dessas pessoas cada vez mais ao ponto de retirar-lhes a humanidade e a obrigação de respeitá-las enquanto seres humanos detentores de direitos humanos e fundamentais tanto quanto os que outorgaram e usurparam suas terras originárias e suas crenças religiosas demonizadas para silenciar e culpabilizar vítimas de atrocidades em guerras em que só venciam aqueles que detinham o poder aquisitivo e político que já se prolongava há anos num mundo eurocêntrico que insiste em disseminar ideias estéticas temporais e autocentradas de que olhos azuis e narizes finos são o ápice da beleza sendo que, cá entre nós... não é tão bonito assim, só nos fizeram acreditar que eles eram mais bonitos e mais dignos de estarem num "status social" acima de nós depois de se apropriarem de nossas riquezas e distorcerem nossas crenças... o Brasil não é colonia há uma cara, mas a maioria fica implorando pra voltar a ser por medo de lidar com sua própria liberdade derivada de distribuição de rendas e oportunidades igualitárias a todos a despeito de suas distintas origens, etnias e culturas sociais e religiosas.

O mundo não pertence à Europa só porque ela decidiu navegar e invadir como se estivesse jogando um jogo de tabuleiro de War cujo objetivo é possuir a maior quantidade de nações que se conseguir dominar através de uma guerra violenta, bárbara e desumana. Não há guerra justificável que seja digna de se taxar enquanto patriota verdadeiramente, quem de fato honra a nação é aquele que levanta 5 horas da manhã e roda a massa de pão no braço coçando devido à depilação com uma gilete barata pra colocar comida na boca do proletariado que está se levantando depois dele pra fazer as engrenagens do mercado funcionarem enquanto herdeiros dormem até 12 horas após as raves noturnas que não têm um horário comercial esperando seus festejantes viciados em bala e doce fornecidas por filhos de políticos renomados que traficam às escondidas para os filhos de ricos esquecerem o tédio do ócio que lidarão no outro dia... a classe dominante dorme e se diverte enquanto a classe operária tudo produz, meus amigos. E aí? Quando faremos algo sobre isso?

Não, eu não ganho dinheiro como artista e minha arte nem é valorizada. Tenho várias músicas gravadas, vários poemas publicados e sei desenhar sombras com esfuminho e lápis 6b como uma verdadeira profissional do desenho mas isso não adianta de nada se eu não consigo monetizar e rentabilizar o suficiente para que não me perguntem qual é de fato a minha verdadeira profissão a fim de me enquadrar em classes profissionais que estipulam o teto de quanto você pode alcançar ao longo dos anos e qual a porcentagem cobrada pelo imposto de renda que se pretende sonegar sob a alegação de que à medida que sua renda aumenta e você se sente cada vez mais injustiçada por ter que entregar o que ganhou "honestamente" ao Estado que por anos forneceu subsistência mediana e dignidade zero, sei lá... eu divago demais. As dores gritam demais, não ganhar dinheiro é muito triste porque me faz sentir como se eu não produzisse a única coisa que importa: papel enumerado que tomou o lugar do sal no sistema econômico ao longo dos anos que mesmo que feda a sangue e culpa é mais cobiçado que o buraco apertado da agulha apresentada pela bíblia...

Talvez eu seja realmente louca, não importa. O dinheiro é a mola do mundo e eu não tenho essa mola porque não cobra pra cantar, não cobro pra escrever, não cobro pra pensar e filosofar, não vejo valor monetário no que realmente importa: questionar tudo o que dizem que vale dinheiro e na real... nem vale, cara. Que se fodam os médicos higienistas que taxam artistas de loucos, que se fodam os sistemas rígidos de biopoder que querem nos podar, que se fodam as pessoas que odeiam a filosofia e a psicologia por não aceitarem ter de encarar a realidade: somos todos manipulados por um sistema muito maior para pessoas que não são nem um pouco maiores que outras mas detêm a maior parte da renda mundial e dominam regras e leis que devem ser obdecidas em silêncio e com muita complascência por quem nada detêm... nós, loucos, artistas, pobres e filósofos. Nossa palavra não vale nada, assim, como a nossa existência. 

A filosofia é temida por nos levar à indignação e ao inconformismo contínuo que não cabe nos tweets de 180 caracteres mas sabemos bem que os blogs já ficaram para trás e agora não importam reflexões mas sim os filtros de imagens que não representam a totalidade daquele momento mas transvestem pessoas tristes em alegres e sorridentes que fingem não buscarem validação por meio de engajamento e viralização nas redes... o topo da cadeia alimentar são os milhões de seguidores unilaterais que fingem te idolatrar mas te repugnam devido à inveja mal administrada e a ânsia em ser exatamente como você, além do mais, admitir que basta ser a pessoa que se é não dá like e muito menos compartilhamentos. 

O cigarro de café tava em falta e eu dispendi a maior parte do dia teclando no notebook em busca de palavras inspiradores que me fizessem esquecer o vício em fumaça cafeínada... mas acabei de pagar 15 reais apenas na entrega, somada ao valor da caixa de cigarros, objetivando receber meus cigarros de café no conforto da porta da minha casa mas acabei de me dar conta de que tomei mais um golpe cruel na internet e paguei um boleto de uma empresa fantasma que se aproveita de fumantes obsessivos que não leem as letras miudas que diziam "esse site está recheado de comentários fake e o código de barras tá com outro cnpj vinculado, hein?" e assim, além de abstinência de tabaco, me encontro odiando essa espécie que prefere mentir e enganar o outro a se encarar no espelho e aceitar sua insignificância que deveria significar mais a si mesmo em detrimento do vazio e da solidão que carregamos por sermos tratados como lixo todos os dias, não só por nossos governantes mas por nossos semelhantes que nunca visaram o bem comum de verdade, mas queriam se beneficiar dos frutos desse fim coletivo que caíriam em seu jardim... mas borboletas não adentram e sementes não brotam em meio à areia movediça de seres imorais e hipócritas que não enxergam seu próprio lamaçal e culpabilizam a tudo e todos ao seu redor pelos resultados de suas vis atitudes...

Humanos demasiado humanos... todos humanos demais para aceitarem sua humanidade, sentimentais demais para se importarem com as vulnerabilidades alheias acima das suas próprias. Todos presos em lamas subjetivas que engolem quem não sabe qual é a sombra de sua inconsciência que o controla, que os leva a encarar o mundo como um campo minado lotado de pólvora molhada de combustível inflamável prestes a explodir caso venha uma faísca no ar... mas faíscas aparecem e não podemos estar armados até os dentes por medo de sermos descobertos ou vistos como realmente somos: bons, maus, certos, errados, titulares de escolhas que definem quem somos a partir da forma como reagimos a tudo o que nos ocorre.

Ou você ataca, ou você acata. Ser flexível ou rígido define o peso das situações que somos forçados a lidar, pode ser que doa, mas você pode colorir a dor e transformá-la numa flor, além de rimar, transmuta a dor em arte e a torna mais digerível. Não dá pra evitar que nos machuquem, mas dá pra olhar por um outro ângulo para a vaca que cagou em você e inicialmente parecia que ela só estava cagando e te atolando em merda sem justificativa plausível quando na verdade, ela te viu agonizando ao sentir frio por ter voado alto demais e congelado enquanto um pássaro curioso e virtuoso e agora diante de tanta bosta, você acha que a sujeira soa como ataque, mas na verdade, era a massa quente necessária pra te salvar da hipotermia mental das suas paranoias que resumem as ações do outro à ataque pessoal quando pode ser que se tratavam de um ato mais que humano: aquecer através da bosta é mais do que amar ao próximo, é salvar o próximo por meio de um método reprovável que surte mais efeito do que os socialmente aceitos.

Por fim, achei meu cigarro numa tabacaria longe da minha casa. Já me envenenei me enganando de que respiro melhor o oxigênio quando mesclado à fumaça cafeínada, me engano que a ansiedade reduziu e o mundo coloriu. Cada um com sua bosta tragável ou esquentável, só não julgue a droga que eu escolhi usar para me salvar da hipotermia mental... o frio é insuportável para a filha do vulcão. E eu não tenho faísca suficiente para manter minha chama acesa sem a necessidade do sopro alheio para estimular meu renascimento nas cinzas.

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